residência na vila universitária

“Com sol e chuva você sonhava / Que ia ser melhor depois […] / Tudo o que você queria ser.”

“Com sol e chuva você sonhava / Que ia ser melhor depois […] / Tudo o que você queria ser.”

Construída em 1980, a casa de Maurício e Duda é tomada como matéria de projeto, não como um problema a ser integralmente substituído. A intervenção parte de um reconhecimento atento das suas condições construtivas, espaciais e materiais, buscando identificar o que pode permanecer, o que precisa ser removido e quais operações são capazes de reorientar a experiência doméstica. Condicionada, entre outros aspectos, pela alvenaria armada existente, a reforma se desenvolve a partir de uma negociação entre as possibilidades da construção e as necessidades de seus habitantes. Trata-se de encontrar uma justeza entre meios e efeitos: transformar sem apagar, ampliar possibilidades sem recorrer à substituição generalizada, reconhecer que, por vezes, a precisão de uma operação localizada é capaz de modificar a leitura do conjunto.

Neste princípio, o projeto não procura impor à edificação uma ordem inteiramente nova, mas reconsiderar as relações que sua configuração havia estabelecido. A atenção se desloca para os espaços que, embora fisicamente presentes, permaneciam à margem da interação cotidiana: recuos laterais impermeabilizados, passagens estreitas e áreas externas subordinadas à organização dos ambientes internos. Antes de acrescentar, é preciso retirar; antes de ampliar, reconhecer onde a continuidade foi interrompida. A reforma opera por seleção, desbaste e recomposição, entendendo a preexistência não apenas como uma condição limitante, mas como um repertório de elementos, materiais e situações a partir do qual outras configurações podem emergir.

Nos recuos laterais, a remoção da camada impermeável restitui espessura ao solo e permite que água, terra e vegetação voltem a participar da constituição desses espaços. O que antes se apresentava como uma faixa árida, comprimida entre a construção e as divisas, passa a adquirir uma condição permeável, esponjosa, capaz de acolher processos naturais e introduzir novas relações com os ambientes internos. A operação não consiste em preencher um vazio com vegetação, mas em alterar a própria condição do terreno: desimpermeabilizar para permitir a infiltração, desbastar para liberar o solo, fecundar aquilo que havia sido reduzido a uma superfície residual. Os jardins deixam de constituir um cenário exterior à casa e passam a integrar sua experiência espacial, introduzindo variações de luz, textura e profundidade no campo visual cotidiano.

No interior, a ampliação de vãos e a descompartimentação dos ambientes procuram desfazer a rigidez de algumas separações existentes. A abertura de janelas em passagens mais generosas, capazes de estabelecer uma relação direta com o exterior, modifica o alcance dos cômodos e prolonga os percursos, visuais e físicos. As relações entre dentro e fora deixam de depender exclusivamente da sucessão de recintos e passam a se estabelecer por meio de limiares mais permeáveis. Nesse processo, o prolongamento do piso de pedra portuguesa costura superfícies e percursos, conferindo continuidade material a espaços anteriormente percebidos como apartados. O piso atua como elemento de ligação: atravessa limites, estica relações e participa da construção de uma unidade espacial que não depende da homogeneização das superfícies externas, mas da possibilidade de atravessá-los e percebê-los em continuidade.

A transformação dos fundos aprofunda esse deslocamento. Antes subordinada à organização da casa, a área posterior assume protagonismo como uma espécie de praça doméstica: um espaço de encontro, permanência e lazer, articulado aos ambientes internos e aos novos jardins. Não se trata apenas de incorporar uma área externa ao programa, mas de inverter a hierarquia dos espaços da residência. Aquilo que poderia permanecer como sobra entre a construção e os limites do lote passa a concentrar atividades e relações cotidianas. A casa se volta para esse novo centro de gravidade, e os fundos deixam de ser uma extensão secundária para se tornarem parte constitutiva de sua organização.

Uma cobertura leve amplia as possibilidades de uso desse espaço. Seus braços estruturais avançam em direção às divisas, projetando o abrigo para além do corpo principal da construção. A cobertura não configura um volume fechado nem procura estabelecer um recinto autônomo; sua ação se dá sobretudo pela extensão da sombra e pela definição de um campo de permanência protegido, mas aberto às relações laterais com o jardim. Abrigar sem encerrar, delimitar sem compartimentar: a estrutura atua como um dispositivo de extensão, capaz de conferir unidade à área posterior sem eliminar sua condição de espaço aberto. A arquitetura se manifesta, nesse ponto, menos como massa construída do que como a construção de uma condição ambiental e de uso.

A intervenção preserva, ainda, elementos significativos da casa existente, como o piso de madeira, ao mesmo tempo que introduz novas conexões e altera a posição relativa de seus espaços. Essa coexistência entre permanência e transformação constitui o princípio operativo da reforma. Não há uma oposição rígida entre o que é antigo e o que é novo, tampouco uma tentativa de apagar as marcas da construção original sob uma linguagem unificadora. Cada elemento é considerado a partir de sua capacidade de participar da nova configuração: alguns são mantidos, outros removidos, ampliados ou prolongados. A diferença emerge da maneira como essas partes são reposicionadas e passam a estabelecer relações que antes não existiam.

Essa postura encontra ressonância na abordagem do escritório belga GAFPA, que descreve sua prática como a reorganização de elementos encontrados — históricos, contextuais e materiais — em novas composições significativas: “We see our practice as rearranging found ‘ready-made’ elements, both historical, contextual, and material, composing them in a new meaningful way.” A afinidade reside menos em uma correspondência formal do que em uma compreensão compartilhada do projeto como operação sobre o existente. Em vez de partir de uma forma ideal a ser imposta à construção, trata-se de reconhecer as condições disponíveis, selecionar seus elementos operativos e recombiná-los para produzir novas possibilidades de uso e percepção. A referência situa a reforma em uma cultura arquitetônica interessada na inteligência do ordinário, na materialidade da construção e na capacidade de transformação contida nas estruturas já constituídas.

A casa é, assim, transformada por uma sequência de operações precisas: desbastar superfícies impermeáveis, liberar o solo, ampliar aberturas, descompartimentar ambientes, prolongar materiais e estender o abrigo. Mais do que renovar uma construção, o projeto procura reativar suas possibilidades. A casa não precisava ser refeita por inteiro, mas voltar a estabelecer relações com seus meios de inserção - o solo, a vegetação, o sol, a chuva. Entre o que permanece e o que se desloca, a reforma constrói uma nova condição de habitabilidade a partir de uma economia de meios e de uma atenção às particularidades do existente. A arquitetura emerge não como negação do passado nem como simples conservação, mas como rearranjo: uma prática de retirar, conectar e prolongar, na qual transformar significa reconhecer, no que já está presente, aquilo que ainda pode vir a ser.

    Categoria: Remodelação

    Localização: Bauru/SP

    Ano: 2026

    Área: 195m²

    Escritório: Gustavo Gonçalves Gimenez

    Créditos: Carolina Mossin