Apartamento Três Marias
Memorial Descritivo — Apartamento Três Marias
Localizado na Avenida Paulista, o Edifício Três Marias teve seu projeto desenvolvido em 1952 por Abelardo de Souza, com a colaboração de Jon Maitrejean. Concebido no contexto de verticalização da avenida, o edifício expressa em sua linguagem modernista o desejo de renovação da cidade. Essa arquitetura, entendida no projeto de reforma como símbolo de uma São Paulo moderna, plural e inclusiva, tornou-se a referência para a transformação do apartamento. A planta existente, entretanto, conservava uma organização compartimentada e hierarquizada, característica dos modos de morar da época. O hall social delimitava o acesso, a cozinha permanecia separada dos ambientes de convivência e os quartos se distribuíam ao longo de um corredor, dividindo entre si as janelas e a relação com o exterior. Havia, portanto, uma tensão entre a expressão moderna do edifício e a configuração tradicional de seus interiores. Foi dessa leitura que surgiu o partido arquitetônico: reinterpretar a organização interna do apartamento, aproximando-a da abertura e da continuidade espacial sugeridas pela arquitetura do edifício. A reforma buscou adequar os ambientes à rotina do morador, tendo como diretrizes a integração dos espaços sociais, a preservação da privacidade e a valorização da luz natural e da paisagem urbana.
A principal intervenção consistiu em reorganizar a área íntima para liberar a sequência de janelas anteriormente separada pelos quartos. Incorporadas à área social, essas aberturas passaram a estabelecer uma relação contínua entre os espaços de estar, refeições e trabalho. A transformação ampliou a distribuição da luz natural e a percepção de profundidade do apartamento, tornando a vista para a Avenida Paulista parte da experiência cotidiana dos ambientes. Essa continuidade foi ampliada pela incorporação do hall de entrada ao espaço social. Antes fechado por paredes, o hall passou a integrar os ambientes de convivência e a estabelecer uma conexão visual com a cozinha. A retirada das divisórias tornou a chegada ao apartamento mais aberta, simplificou os percursos e favoreceu tanto a circulação das pessoas quanto a passagem do ar e a distribuição da iluminação natural. Para viabilizar essa reorganização, a área íntima foi concentrada em um bloco central revestido em amadeirado preto. O volume preserva a privacidade dos ambientes reservados e, ao mesmo tempo, organiza os espaços sociais ao seu redor. Sua posição e sua presença definem os limites das salas de estar e de TV, permitindo que a diferenciação dos usos ocorra sem comprometer a continuidade visual da área de convivência.
O revestimento preto reforça a leitura do bloco como um elemento arquitetônico único. Sua tonalidade contrasta com a luminosidade das áreas junto às janelas, destacando os volumes e a profundidade dos espaços. A textura amadeirada acrescenta uma dimensão tátil à composição e estabelece um diálogo com o concreto armado da mesa, outro elemento que estrutura a organização do apartamento. Implantada junto às janelas, a mesa foi desenhada para reunir refeições e trabalho, aproveitando a luz natural e privilegiando a vista para a Avenida Paulista. A sobreposição desses usos responde à rotina do morador e permite que uma mesma peça participe de diferentes momentos do dia. Uma coluna estrutural existente foi incorporada ao desenho como suporte para o tampo de concreto armado, que se projeta por mais de dois metros em balanço. A solução transforma a estrutura original em parte ativa da nova composição e evidencia a relação entre apoio e projeção. Com o espaço sob o balanço livre de apoios, a mesa delimita o ambiente e preserva a continuidade visual, aproximando o desenho do mobiliário da própria arquitetura. Essa relação também orientou a escolha das demais peças, realizada em conjunto pelo arquiteto e pelo morador, ambos interessados em design. O mobiliário dialoga com a linguagem modernista do edifício e reúne trabalhos de Cini Boeri, Percival Lafer, Paulo Mendes da Rocha, Vico Magistretti e Jean Prouvé. A diversidade de formas, materiais e soluções construtivas da coleção complementa os elementos desenhados para a reforma e participa da identidade dos ambientes.
A transformação do apartamento se apoia, assim, em uma reorganização que relaciona espaços abertos de convivência a um núcleo íntimo bem definido. A sequência de janelas, o hall integrado, o bloco central e a mesa em balanço compõem uma arquitetura na qual luz, circulação, estrutura e mobiliário atuam de forma conjunta, estabelecendo um diálogo entre o edifício original e os modos de morar contemporâneos.
Projeto original do edifício: Abelardo de Souza, com colaboração de Jon Maitrejean, 1952.
Produção de arte: Aldi Flosi e Eduardo Correia.
Categoria: Design de interiores
Localização: Avenida Paulista, 2239 - Apartamento 112
Ano: 2020
Área: 200m²
Escritório: Eduardo Franco Correia
Créditos: Carolina Mossim
