Como o desenho urbano e a infraestrutura transformam as cidades brasileiras em espaços de convivência

De parques lineares a áreas de lazer sob viadutos, intervenções reconhecidas nacionalmente mostram soluções práticas que devolvem o espaço público às pessoas

Muitas vezes, quando se pensa em arquitetura, a primeira imagem que surge é a de uma casa bem desenhada ou de um grande edifício envidraçado, mas o que mais impacta a rotina coletiva é o que acontece do lado de fora dos lotes particulares. As calçadas, as margens dos rios e as praças formam a base da vida comunitária. Na última quinta-feira, dia 3 de setembro, foram revelados os vencedores do 3º Prêmio PROJETO de Arquitetura, premiação que mapeia as obras construídas mais representativas do país. Na categoria de Infraestrutura e Desenho Urbano, a seleção destacou propostas que mostram como intervenções no espaço público podem transformar áreas antes degradadas, esquecidas ou dominadas pelos carros em lugares vivos e acolhedores.

O grande vencedor da categoria foi o escritório Sotero Arquitetos, com a ocupação das áreas sob os elevados do sistema de ônibus rápido em Salvador. Em vez de aceitar o vazio sombrio e inseguro que viadutos desse porte costumam criar nas avenidas centrais da capital baiana, o projeto planejou uma faixa contínua de convivência embaixo das estações Hiper e Cidadela. A intervenção organiza quadras esportivas, pequenos comércios e praças de convivência geridas pela iniciativa privada, garantindo circulação constante de pedestres e trazendo mais segurança para uma região antes hostil a quem caminha a pé.

Recebendo uma menção honrosa do júri, a requalificação do Parque Linear da Doca, em Belém, desenvolvida pelo escritório Natureza Urbana, resgata a proximidade da cidade com a sua malha hidrográfica. Ao longo das décadas, a capital paraense cobriu ou afastou o cotidiano dos moradores do Igarapé das Almas, um canal que no passado movimentava pequenas embarcações e trocas comerciais. A nova proposta redesenha essa orla com caminhos arborizados, passeios acessíveis e áreas de contemplação, permitindo que a população volte a conviver harmoniosamente com as águas que definem a identidade do território.

No sul do país, o primeiro trecho do Parque Linear do Rio Barigui, em Curitiba, assinado pela Oficina Urbana de Arquitetura, transformou uma faixa de seiscentos metros de extensão antes deteriorada e dominada pelo tráfego rodoviário em um espaço público convidativo. O desenho integrou ciclovias, caminhos para caminhada e vegetação nativa nas margens fluviais, auxiliando na drenagem natural da água da chuva e oferecendo aos moradores um refúgio seguro para o lazer e a mobilidade ativa no meio da malha urbana consolidada.

Em Fortaleza, o Complexo Ambiental e Gastronômico de Sabiaguaba, concebido pelo escritório Architectus, articulou atividade econômica local e conservação ecológica na foz do Rio Cocó. A intervenção atendeu a um pedido antigo de comunidades tradicionais da região para ordenar o turismo e valorizar a culinária típica, erguendo quiosques e passagens elevadas que protegem as dunas e os manguezais ao redor, ao mesmo tempo em que geram emprego e renda diretamente para as famílias do bairro litorâneo.

No interior de Goiás, a Praça Universitária de Jataí, projetada pela Florentino Arquitetura Paisagística, deu um novo propósito cívico a uma área cedida pela universidade federal após a transferência de suas salas de aula para um novo campus. Respeitando o relevo e a arborização existente, o parque urbano foi estruturado com percursos lúdicos e equipamentos de recreação inspirados na disposição dos planetas do Sistema Solar, mantendo vivo o desejo comunitário de abrigar um futuro planetário e criando um ponto de encontro ao ar livre para toda a vizinhança.

Na capital paulista, a requalificação da Praça Mashiach Now, também assinada pelo escritório Natureza Urbana, renovou um ponto estratégico da zona norte, ao lado do Terminal Rodoviário e da estação de metrô Portuguesa-Tietê. O projeto foi desenhado a partir de conversas diretas com a vizinhança para atender às demandas de quem circula pelo local diariamente, implantando caminhos com acessibilidade, áreas de descanso e amplas faixas verdes dentro de uma proposta sustentável de cidade-parque para o desenvolvimento do entorno.

Ao olharmos para esse conjunto de obras, fica evidente que o desenho urbano de qualidade não é um luxo visual, mas uma ferramenta fundamental de saúde pública e bem-estar coletivo. Seja ao ocupar o vão de um viaduto, ao regenerar a margem de um rio ou ao abrir uma praça acolhedora, a arquitetura prova que as melhores soluções urbanas nascem quando o projeto coloca o pedestre e o convívio comunitário no centro das decisões.

Fotos: Divulgação / Revista PROJETO (https://revistaprojeto.com.br/noticias/3o-premio-projeto-de-arquitetura-conheca-os-finalistas/)