Coletivo criativo expõe arte feita de restos da construção civil.
Uma vernissage marca a abertura de uma exposição artística, promovendo o primeiro diálogo entre o público, as obras e seus criadores. No caso da mostra Raízes, realizada em Marília no dia 29 de maio de 2026, esse momento refletiu diretamente a essência do projeto DOM E ARTE, idealizado por Samuel Azevedo, CEO da Dom Parquet. Tendo a fé como base de sua trajetória, Samuel enxerga o ato de criar como a capacidade de dar forma e expressão ao que antes existia em silêncio. O Dom e Arte nasceu justamente desse olhar: um ponto de encontro entre matéria, identidade e sensibilidade, estruturado como um espaço onde os artistas são convidados a olhar para os materiais não como um fim, mas como um campo aberto de possibilidades que preserva e revela sua própria origem. Na exposição atual, essa filosofia se materializa quando resíduos da construção civil são resgatados do descarte e ganham uma nova existência pelas mãos de nove artistas locais. Para conectar o público a essa transformação, o curador Fernando Barrueco introduz a mostra:
"Raízes nasce como se a matéria, depois de abandonada, fosse convocada a depor. A exposição reúne nove artistas de Marília diante de uma tarefa aparentemente simples: olhar para restos da construção civil: pisos de madeira, cerâmicas, tijolos, argila, fragmentos de obra e reconhecer neles não o fim de uma utilidade, mas o início de outra existência.
Nada ali é apenas sobra. A madeira não é só madeira. O tijolo não é só tijolo. A cerâmica não é apenas superfície quebrada.
Cada fragmento carrega uma memória anterior por onde passou, em obras de casas erguidas, paredes fechadas, caminhos pisados, obras interrompidas, gestos anônimos. A matéria chega aos artistas como quem chega de um processo antigo, sem saber ainda se será condenada ao descarte ou absolvida pela forma.
João Muniz reconhece na madeira cheiro, textura, acolhimento e ancestralidade. Jonathan Sprada vê nas "raízes" uma linguagem humana, algo que permanece enraizado em nós antes mesmo da palavra, arte como definição de humanidade. Livia Doreto percebe a arte como aquilo que diz o que a fala não alcança: não simples telas, mas mensagens com alma. Para Claudia Sene a arte passa a fazer parte do registro histórico do momento.Giovana Sandrin aproxima a criação da transmutação. Amanda Passerani lembra que muitas vezes é o invisível que sustenta. Maria Helena Baracat dissolve a fronteira entre arte, casa, luz, natureza e silêncio. Denise Ferioli eleva a arte ao complexo, mais sentida do que explicada. Ricardo Arantes Scheibel, por sua vez, conduz a matéria ao limite físico: dor, corte, peso, incisão, densidade, pois a arte está inserida no mundo físico, deve-se manipular a matéria como núcleo da experiência estética.
Raízes não trata apenas de sustentabilidade. Trata daquilo que permanece quando a função acaba. Trata do instante em que o resíduo deixa de obedecer à lógica da obra e passa a existir como pensamento.
Arte que é captada pelas lentes do cineasta Anderson Marques, em vídeos breves, que enriquece sobremaneira a exposição RAÍZES, deixa uma questão, cada obra parece perguntar ao público: o que ainda vive naquilo que você chama de resto?
Talvez a resposta esteja justamente aí: na matéria esquecida que retorna, não para servir, mas para revelar."
Fotografia por Cauê Fischer.