Exposição sobre Burle Marx no Museu Judaico de São Paulo
"Por que copiar jardins europeus se a maior riqueza está na vegetação brasileira?" A partir desse questionamento de Roberto Burle Marx, a exposição "Plantas em Movimento" mostra como o paisagista valorizou a natureza nacional e utilizou sua história familiar para revolucionar a criação de jardins modernos.
A exposição “Burle Marx, Plantas em Movimento”, apresentada pelo Museu Judaico de São Paulo em parceria com o Instituto Burle Marx, estabelece um recorte fundamental sobre a metodologia do paisagista e seus colaboradores, enfatizando a ruptura com a tradição de importação de modelos europeus. O artista consolidou uma estética tropical autêntica ao realizar expedições de reconhecimento botânico, substituindo a reprodução de jardins franceses e ingleses pelo uso estratégico de plantas nativas brasileiras. Tal prática não se limitava ao nacionalismo estrito, mas adotava uma postura cosmopolita ao integrar espécies exóticas adaptáveis, refletindo uma identidade em constante movimento e recusando concepções fixas de cultura.

A mostra transcende a apresentação sequencial de projetos para iluminar a relação entre a presença recorrente de espécies vegetais e a herança judaica do artista, transmitida pela via paterna. Segundo a curadoria do Museu Judaico de São Paulo (2026), essa perspectiva permite compreender a experiência de Burle Marx como parte de uma história mais ampla de migrações e travessias, aproximando seu legado estético de princípios ligados à diáspora. O jardim é interpretado, portanto, como um espaço de convivência entre diferenças, onde o movimento constante das plantas espelha a criação de identidades múltiplas e a recusa de fronteiras rígidas entre natureza e sociedade.

A genialidade do paisagista fundamentava-se em um rigoroso processo de pesquisa científica e observação in loco, transformando seu sítio em Barra de Guaratiba em um laboratório vivo para testar a viabilidade e a ecologia das composições antes de aplicá-las em escala pública. A exposição reúne desenhos, fotografias e documentos que revelam a construção de um repertório vegetal próprio, muitas vezes composto por espécies ainda não catalogadas pela ciência na época. Ao propor essa nova forma de pensar a relação entre natureza e cultura, a exibição reafirma que o trabalho de Burle Marx foi, acima de tudo, um manifesto de preservação ambiental e um convite à compreensão da identidade como algo dinâmico e em perpétua transformação.

MUSEU JUDAICO DE SÃO PAULO. Burle Marx: plantas em movimento. São Paulo: MUJ, 2024. Disponível em: https://museujudaicosp.org.br/evento/burle-marx-plantas-em-movimento/. Acesso em: 12 mai. 2026.
