O Legado Lotufo: Três Gerações de Arquitetura, Ecologia e Valorização do Interior Paulista
Da consolidação do modernismo no século XX às inovações da permacultura contemporânea, a trajetória da família Lotufo revela como a prática arquitetônica pode transformar a sociedade e enaltecer a paisagem e a cultura do interior de São Paulo.
A profunda relação da família Lotufo com a arquitetura brasileira e com o interior paulista tem sua gênese na figura de Zenon Lotufo (1911-1985). Nascido em Botucatu, Zenon formou-se como engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica de São Paulo em 1936, período em que a racionalidade clássica de sua formação acadêmica começou a se fundir com os emergentes ideais do modernismo. Embora tenha ganhado notoriedade nacional ao integrar a equipe de Oscar Niemeyer no histórico projeto do Parque do Ibirapuera, inaugurado em 1954, o arquiteto deixou uma marca indelével na paisagem do interior de São Paulo. Ao longo de sua carreira, Zenon foi responsável por projetar edifícios que impulsionaram a modernidade fora da capital, como o Mercado Municipal de Sorocaba, o Botucatu Tênis Clube e projetos de relevância cívica na cidade de Bauru, consolidando uma estética que aliava a fluidez das linhas curvas cariocas à precisão estrutural paulista (Modenese Filho, 2008; Salcedo; Ghirardello, 2025). Além de suas obras, destacou-se como teórico, publicando o ensaio "O Espaço Psicológico na Arquitetura", no qual defendia que a verdadeira arquitetura deveria organizar os espaços em harmonia com as emoções e necessidades humanas (Modenese Filho, 2008).

A segunda geração, representada por Vitor Amaral Lotufo, expandiu o legado intelectual do pai, mas direcionou sua prática para uma forte atuação social e para o estudo aprofundado de técnicas construtivas alternativas. Formado pela Faculdade de Arquitetura do Mackenzie em 1967, Vitor assumiu uma postura questionadora em relação à arquitetura puramente autoral, priorizando o gerenciamento do canteiro de obras para evitar desperdícios e valorizando o uso do tijolo de barro e estruturas inovadoras, como abóbadas e cúpulas (Carranza, 2017). Sua inclinação para a arquitetura de impacto social evidenciou-se em sua participação ativa nos mutirões de habitação popular da prefeitura de São Paulo no início dos anos 1990 e no emblemático projeto do Centro Cultural Vila Prudente, onde ressignificou espaços em uma área de grande vulnerabilidade. Reforçando os laços familiares com o interior do estado, Vitor foi o idealizador de uma residência ecológica feita de terra e estruturas de cupinzeiro, edificada em Botucatu, provando que o interior paulista é um território fértil para experimentações que unem sustentabilidade e valorização vernacular (Carranza, 2017; Hama, 2020; Pereira, [s.d.]).
Fonte: @tomaz_lotufo (2026).
O compromisso com o impacto social e a ecologia atinge seu ápice na terceira geração, com Tomaz Lotufo. Arquiteto e urbanista formado pela PUC Campinas no ano 2000 e mestre pela FAUUSP em 2014, Tomaz especializou-se em permacultura, uma abordagem que funde conhecimentos ancestrais com tecnologias atuais para criar assentamentos humanos sustentáveis. Tomaz foi o responsável pela construção da famosa "Casa de Cupinzeiro", projetada por seu pai em Botucatu, que utiliza uma "baba" protetora deixada pelos cupins na terra, tornando a alvenaria altamente resistente às chuvas (Hama, 2020). Por meio de seu trabalho no escritório colaborativo Sem Muros, ele atua no sentido de deselitizar a arquitetura, tratando a casa como um organismo vivo onde resíduos são convertidos em recursos, e expandindo essa filosofia tanto em reformas urbanas na capital quanto em projetos de empoderamento comunitário em rincões do país, visando garantir que a ecologia seja acessível a todas as faixas de renda (Hama, 2020).

O epicentro que unifica a história, a filosofia e a geografia dessa linhagem de arquitetos é o Sítio Beira Serra, cravado no município de Botucatu. Inicialmente um refúgio desenhado para reunir a família e compartilhar ideais, a propriedade rural transformou-se em um vigoroso núcleo pedagógico de bioconstrução, agroecologia e difusão da cultura caipira. O sítio abriga residências ecológicas, como a de argamassa armada com teto verde e a própria casa de cupinzeiro, servindo como um laboratório prático para visitantes e estudantes de permacultura. Além de promover a sustentabilidade econômica por meio da agricultura familiar e de eventos culturais, o espaço simboliza a materialização do respeito ao meio ambiente e ao patrimônio do interior paulista (Fossaluza, 2026). Assim, a família Lotufo perpetua um legado que transcende o mero desenho de edificações, provando que a arquitetura, do modernismo de meados do século XX à permacultura do século XXI, é uma ferramenta viva de conexão entre o indivíduo, a sociedade e a paisagem natural do interior de São Paulo.

SALCEDO, R. F. B.; GHIRARDELLO, N. A arquitetura moderna em Bauru: um projeto de Zenon Lotufo. In: SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL, 4., 2025. Anais [...]. v. 4, p. 1-3, 2025. Disponível em:
