Luzes, Câmera, Interior: Festival de Cinema de Marília

Das projeções pioneiras nos edifícios históricos da década de 1960 aos modernos laboratórios de formação audiovisual, o evento que antecipou grandes mostras nacionais reafirma o interior paulista como um polo de resistência e inovação cultural.

O interior do Estado de São Paulo abriga uma rica e subestimada trajetória de vanguarda cultural que dialoga intimamente com o desenvolvimento de seus espaços urbanos. A cidade de Marília, impulsionada em suas origens pela economia cafeeira, destacou-se por um pioneirismo cinematográfico ímpar ao consolidar edifícios que se tornaram verdadeiros marcos de convivência e estética arquitetônica, a exemplo do Cine Marília, construído com linhas refinadas em art déco, e do Cine São Luís, marcado por influências modernistas e revestimentos geométricos em pastilhas (Bispo, 2017). Estes imponentes espaços físicos formaram o palco estrutural para as edições originais do Festival de Cinema de Marília na década de 1960, um evento que precedeu mostras hoje consagradas e reconfigurou a paisagem urbana local, atraindo cineastas, atores e multidões que tomavam as principais avenidas da cidade, demonstrando a força e a capacidade do interior paulista como um robusto polo irradiador de arte (Bispo, 2017).

Cine Marília, 1955
Fonte: Marília Forties.
Cine São Luiz, década de 1930
Fonte: Marília Forties.

Aprofundando essa trajetória física, os cinemas São Luiz e Marília consolidaram-se sob a gestão da Empresa Theatral Pedutti como centros de excelência técnica e social. O Cine São Luiz, inaugurado na Rua 9 de Julho na década de 1920 como Cine Municipal, foi adquirido pelos irmãos Pedutti em 1933, mantendo sua relevância até os anos 1970. No entanto, foi a inauguração do Cine Marília, em 4 de fevereiro de 1941, que elevou o status cinematográfico da cidade; projetado com 2.200 lugares e estética Art Déco exuberante, o edifício contava com mármores importados e aparelhagem da Western Electric de última geração. Para além da arquitetura, o cotidiano desses espaços — marcado por sessões solenes, funcionários em trajes formais e o tradicional Cine Bar — moldou a identidade urbana mariliense até a demolição do Cine Marília em 1984, evento que encerrou um capítulo fundamental do patrimônio local (MARÍLIA FORTIES, 2012).

Cine Marília, década de 1940
Fonte: Marília Forties.
Cine São Luiz, década de 1950
Fonte: Marília Forties.

A distância geográfica em relação às grandes metrópoles litorâneas e capitais produtoras não atuou como um entrave, mas sim como um vetor de organização independente para a comunidade mariliense. Articulada pelas ações do Clube de Cinema de Marília, criado em 1952, a cidade contornou o isolamento regional e construiu um ambiente de intenso debate intelectual, estabelecendo conexões diretas com grandes intelectuais e estúdios cinematográficos mundiais (Bispo, 2017). Este engajamento enraizado no interior culminou na idealização do Prêmio Curumim, uma cobiçada estatueta entregue entre as décadas de 1960 e 1980 que julgava e honrava os maiores expoentes das produções nacionais (Bispo, 2017). Com essa ousada iniciativa, o município provou que o espaço interiorano possui plena capacidade analítica e formativa, rompendo com a hegemonia cultural até então restrita aos grandes centros metropolitanos.

Na atualidade, o Festival de Cinema de Marília vivencia uma retomada vigorosa que honra seu legado histórico e reafirma sua importância nas novas dinâmicas do cenário audiovisual. O evento moderno, agora oficializado no calendário do município, mantém a tradição ao exibir dezenas de curtas e longas-metragens de diversos países, promovendo debates cruciais que perpassam temas como inclusão social, sustentabilidade e pertencimento (Festival de Cinema de Marília, 2024). Ademais, a nova configuração do festival expandiu suas ações formativas com a inclusão de laboratórios dedicados ao desenvolvimento de projetos audiovisuais, cujo objetivo central é justamente descentralizar a produção cinematográfica e capacitar novos profissionais da macrorregião (Festival de Cinema de Marília, 2025). Dessa forma, o evento continua a valorizar a identidade geográfica regional, garantindo que o interior de São Paulo permaneça como um território vibrante, produtivo e indispensável para a preservação das narrativas brasileiras.

Referências

BISPO, Thiago Henrique de Almeida. O cinema na cidade: entre a memória e o esquecimento Marília-SP (1927 – 2000). 2017. 90 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marília, 2017. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/cd9f6368-f0bb-4019-b9e4-3c44c6c9cf6b. Acesso em: 19 fev. 2026.

FESTIVAL DE CINEMA DE MARÍLIA. Site Oficial: Apresentação, Edições Anteriores e Notícias. Marília, 2024. Disponível em: https://www.festivalcinemamarilia.com.br/apresentacao. Acesso em: 19 fev. 2026.

FESTIVAL DE CINEMA DE MARÍLIA. Site Oficial: CristaLab - Laboratório de Desenvolvimento de Roteiros. Marília, 2025. Disponível em: https://www.festivalcinemamarilia.com.br/cristalab. Acesso em: 19 fev. 2026.

MARÍLIA FORTIES. Cinemas in Marília. Marília, 3 ago. 2012. Disponível em: https://marilia-forties.blogspot.com/2012/08/cinemas-in-marilia.html. Acesso em: 19 fev. 2026.