Do Café ao Cubismo: O Interior de São Paulo como Berço da Modernidade de Tarsila
Entre palmeiras, linhas de trem e tons vibrantes, Tarsila do Amaral provou que a verdadeira vanguarda estava no quintal de casa. Entenda como o interior paulista deixou de ser cenário para se tornar o protagonista da antropofagia artística.
A trajetória de Tarsila do Amaral encontra-se intrinsecamente ligada à paisagem e à cultura do interior paulista, região que moldou sua identidade e sua produção artística. Nascida no município de Capivari, a pintora cresceu no ambiente rural da fazenda São Bernardo, pertencente a uma tradicional família de cafeicultores da elite paulista, o que lhe proporcionou uma infância permeada pelas referências visuais e geográficas do campo (Araujo, 2022). Apesar de suas profundas raízes interioranas, a artista buscou o aprimoramento técnico na Europa, especialmente em Paris, a partir da década de 1920, onde frequentou academias renomadas e estudou com grandes mestres (Rodrigues, 2010). Mesmo imersa na vanguarda parisiense, circulando nos meios cosmopolitas, a artista mantinha um forte apego às suas origens, expressando o claro desejo de consagrar-se na arte como a autêntica "caipirinha de São Bernardo" e de apresentar ao mundo as singularidades e os traços da sua região (Araujo, 2022).

Embora seja um dos nomes mais fundamentais da renovação artística do país, a pintora não esteve presente na efervescência do Teatro Municipal durante a Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922. O seu retorno de Paris ocorreu apenas em meados daquele ano, momento em que foi apresentada aos líderes do movimento modernista, aderindo prontamente à nova estética e formando o célebre "Grupo dos Cinco" (Rodrigues, 2010). Essa reintegração ao cenário nacional e as posteriores viagens de redescoberta do Brasil, realizadas ao lado de intelectuais como Oswald de Andrade e do poeta franco-suíço Blaise Cendrars, foram decisivas para que o olhar da artista se voltasse definitivamente para as raízes de sua própria terra. Tais incursões, que incluíram visitas a cidades coloniais e fazendas do interior de São Paulo, despertaram nela a percepção de que a verdadeira vanguarda nacional deveria ser extraída da simplicidade arquitetônica, da cultura popular e da riqueza plástica de nossas paisagens nativas (Araujo, 2022).

Esse esforço de reconhecimento do interior rural e de suas formas consolidou a fase "Pau-Brasil" do movimento modernista brasileiro, na qual Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se inseriram de maneira expressiva na busca por uma identidade nacional autêntica. Essa sinergia entre a literatura e as artes plásticas na tradução do espaço geográfico pode ser exemplificada na comparação entre o poema "Longo da linha", de Oswald, e a tela "Palmeiras", de Tarsila, obras que convergem ao retratar o cenário rural. Ambas as composições demonstram um percurso estético rumo à planaridade e à estilização para produzir os chamados efeitos de primeiridade, aproximando-se mais da forma abstrata e da experiência puramente sensorial do que de uma simbolização tradicional (Motta, 2013). Ao reduzir a vegetação e o relevo do interior paulista a traços sintéticos e geométricos, a pintora conseguiu captar a essência espacial da região em uma linguagem moderna e universal.
Longo da linha
Coqueiros
Aos dois
Aos três
Aos grupos
Altos
Baixo (Motta, 2013)
Tarsila do Amaral, Palmeiras, 1925.
Óleo sobre tela, 86 x 73,5 cm. Reprodução: Enciclopédia Itaú Cultural.
Toda essa imersão nas características mais profundas de sua terra culminou, posteriormente, em sua fase artística mais autoral, simbolizada primordialmente pela criação da tela Abaporu, em 1928. A pintura, que serviu como força motriz para o subsequente Manifesto Antropófago, retrata a figura agigantada do homem nativo solidamente plantado sobre o chão brasileiro, sintetizando a relação orgânica e enraizada entre o sujeito e a terra (Araujo, 2022). Para materializar essa e outras obras que dialogam intimamente com o interior geográfico e afetivo de São Paulo, a pintora resgatou as chamadas "cores caipiras" que tanto admirava em sua infância nas fazendas e que, durante os anos de formação acadêmica, fora ensinada a rejeitar. A utilização de tons puros e vibrantes da cultura popular — como o azul, o rosa-violáceo, o amarelo vivo e o verde cantante — rompeu com o rigor europeu para dar vida ao ambiente rural de maneira arrojada (Araujo, 2022). Dessa forma, Tarsila não apenas eternizou os aspectos visuais e estéticos do interior paulista, como inseriu o Brasil de forma contundente na história da vanguarda internacional.

Referências
ARAUJO, Natalia Aparecida Bisio de. As relações estéticas entre Blaise Cendrars, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral no Modernismo Brasileiro. 2022. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Araraquara, 2022. Disponível em:
MOTTA, Sergio Vicente. Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral: poesia e pintura modernistas. Lumen et Virtus, v. 8, n. 4, p. 106-123, 2013. Disponível em:
RODRIGUES, Wladimir Wagner. As mulheres de Klaxon: o universo feminino a partir dos modernistas. 2010. Dissertação (Mestrado em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", São Paulo, 2010. Disponível em:
