SÍTIO ROBERTO BURLE MARX: LABORATÓRIO VIVO DO PAISAGISMO MODERNO

O legado paisagístico de Burle Marx ganha reconhecimento global através do conjunto que foi seu laboratório vivo de experimentação botânica e artística.

Em 1949, Guilherme Siegfried Burle Marx, irmão de Roberto Burle Marx, saiu pelo Rio de Janeiro em busca de um terreno com abundância de água para o cultivo das plantas que abasteceriam os jardins projetados pelo paisagista em todo o Brasil. A busca o levou à Barra de Guaratiba, zona oeste da cidade, onde encontrou uma antiga propriedade que havia pertencido a padres jesuítas desde o século XVII, marcada por nascentes e vegetação exuberante. Esse encontro entre território, água e experimentação deu origem ao que viria a se tornar o Sítio Roberto Burle Marx, embrião de um dos mais importantes espaços do paisagismo moderno.

Ao longo de 40 anos, Burle Marx transformou mais de 400 mil metros quadrados em um verdadeiro laboratório paisagístico a céu aberto, onde desenvolveu princípios que revolucionaram a forma de pensar e criar jardins. Rompendo com os padrões europeus tradicionais, estabeleceu uma linguagem genuinamente tropical e brasileira, destacando formas sinuosas, contrastes de cores e texturas, e o uso pioneiro de plantas nativas como elementos centrais de seus projetos.

Hoje o sítio abriga uma impressionante coleção de mais de 3.500 espécies de plantas tropicais e subtropicais, muitas delas resgatadas por Burle Marx de seus habitats originais durante expedições pelo Brasil. Algumas são raras e únicas, convivendo em harmonia com a mata atlântica, restinga e manguezal ao redor. Esta coleção viva não apenas preserva a biodiversidade brasileira, mas também serviu como paleta vegetal para seus projetos paisagísticos icônicos, do Aterro do Flamengo ao Parque do Ibirapuera.

A arquitetura do sítio complementa perfeitamente sua dimensão botânica. As edificações históricas, que incluem a capela do século XVII herdada dos jesuítas, a casa principal e os ateliês, integram-se harmoniosamente aos jardins com seus sete lagos e pontes. Cada espaço revela a abordagem multidisciplinar de Burle Marx: além de paisagista, ele foi pintor, escultor, ceramista e designer têxtil, e todas essas expressões artísticas dialogam no sítio.

Burle Marx passou seus últimos anos vivendo no sítio, e após sua morte em 1994, sua residência se transformou no Museu-Casa Roberto Burle Marx, aberto ao público. Lá estão objetos de uso pessoal, obras de arte e peças colecionadas ao longo da vida. Como relembra Ana Cecilia Burle Marx, filha de Sieg e sobrinha de Roberto: "Tudo girava em torno de uma grande mesa, onde os convidados mergulhavam em sensações ainda não vividas. Na Casa de Roberto, uma entre as sete construções do sítio, com seus sete lagos e pontes, a banalidade simplesmente não existia."

Para além de sua importância científica e paisagística, o sítio representava algo ainda mais profundo para aqueles que o vivenciaram. Nas palavras de Ana Cecilia: "O sítio era o refúgio da alma: ali estavam a evasão, a beleza, a arte e a música." Esse espaço singular reunia todas as paixões de Burle Marx em um só lugar, criando um ambiente onde natureza, arte e convívio humano se entrelaçavam de forma única.

O sítio foi tombado como Patrimônio Cultural pelo Brasil em 1985 e, em 2021, alcançou reconhecimento internacional ao ser inscrito na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, tornando-se o primeiro jardim moderno a conquistar tal distinção. Este título destaca não apenas o valor paisagístico e botânico do espaço, mas também sua contribuição fundamental para o desenvolvimento de teorias e práticas modernas de paisagismo.

Atualmente sob gestão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o sítio funciona como museu e centro de pesquisa, recebendo visitantes, estudiosos e profissionais interessados em compreender o legado de Burle Marx. As visitas guiadas permitem apreciar tanto os jardins quanto a casa-museu, proporcionando uma imersão completa no universo criativo do artista.

Este reconhecimento internacional consolida a importância do trabalho de Burle Marx, reforça a relevância da contribuição brasileira para a cultura mundial e garante a preservação desse patrimônio para as futuras gerações. Mais do que um jardim, trata-se de uma obra de arte viva que continua inspirando novas gerações de paisagistas, arquitetos e artistas ao redor do mundo.

Créditos das fotografias: Oscar Liberal, Diego Rodriguez Crescêncio, Marlon da Costa Souza e José Tabacow