RODOVIÁRIA DE JAÚ: O BRUTALISMO POÉTICO DE VILANOVA ARTIGAS
"Concreto que abraça: onde estrutura vira escultura e infraestrutura vira monumento."
A Rodoviária de Jaú, projetada por Vilanova Artigas em 1973 e inaugurada em 1976, é um marco da arquitetura brutalista paulista. Tombada pelo Condephaat, a obra transcende sua função de terminal de transportes para se estabelecer como manifesto sobre o papel da arquitetura na democratização do espaço público.
Integração Urbana e Topografia
Localizada na área central da cidade de Jaú, o arquiteto aproveita o desnível natural do terreno para criar uma transposição pelo interior do edifício, conectando a área central à parte alta da cidade. O projeto possui acesso tanto pelo piso superior quanto pelo térreo, permitindo que a rodoviária funcione também como passagem urbana.

O percurso foi organizado internamente por meio de rampas, permitindo a circulação livre dos pedestres sem a interferência das plataformas de ônibus. Essa solução demonstra a maestria de Artigas em trabalhar com topografias complexas, criando acessos naturais e integrando a construção à paisagem urbana existente.

A Estrutura e os Pilares em Flor
A cobertura, executada em laje nervurada, é suportada por dezoito pilares dispostos sob uma retícula de dez por dezessete metros, organizados em três linhas de seis. Os pilares são quadrados e medem oitenta e cinco centímetros de lado.
Com o intuito de permitir maior entrada de luz no interior do projeto, sobre cada pilar a laje se desfaz numa abertura circular de quatro metros de diâmetro no nível superior e seis metros no nível inferior. O pilar segue a abertura, gira quarenta e cinco graus e se desabrocha em quatro componentes curvos, dando um formato de flor aos pilares implantados.

Essa solução técnica transforma o encontro entre pilar e laje em momento de expressão plástica. A curvatura dos componentes suaviza a rigidez do concreto, introduzindo movimento e delicadeza em uma estrutura monumental. É brutalismo que não nega a poesia.
Cobertura Generosa como Espaço Público
A grande cobertura cria espaço protegido que funciona como praça coberta. Em país de clima tropical, criar sombra generosa é ato de cidadania. O espaço público coberto convida à permanência, protege do sol e da chuva, e afirma que equipamentos de infraestrutura devem servir dignamente a todos os cidadãos.
A laje retangular de cinquenta por cinquenta e oito metros configura uma cobertura monumental que abriga não apenas as funções do terminal, mas também a convivência urbana.

Patrimônio Vivo
O tombamento pelo Condephaat reconhece que a Rodoviária de Jaú não é apenas edifício funcional, mas documento histórico de um momento em que arquitetos brasileiros acreditavam que sua prática poderia contribuir para construção de sociedade mais justa. Décadas após sua construção, o terminal continua funcionando e provando que boa arquitetura não envelhece.

A presença de obra tão significativa de Artigas em Jaú contradiz a ideia de que grande arquitetura se concentra apenas nas capitais. O interior paulista foi beneficiado por projetos de arquitetos comprometidos com excelência independente da escala ou localização, refletindo a crença de que todo brasileiro merece arquitetura de qualidade.
Arquiteto: Vilanova Artigas
Projeto: 1973
Inauguração: 1976
Localização: Jaú, São Paulo
Fotos: Nelson Kon
