36ª BIENAL DE SÃO PAULO: "DA CALMA E DO SILÊNCIO"

"Em tempos de urgência perpétua, a calma se torna revolução: repensar a humanidade exige desacelerar para ouvir."

A 36ª Bienal de São Paulo, que acontece de 6 de setembro de 2025 á 11 de janeiro de 2026, posiciona-se como farol de reflexão em um mundo marcado por crises sociais, políticas e ambientais. Sob a curadoria-chefe de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, e com a colaboração de Alta Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza, Keyna Eleison e a consultoria de Henriette Gallus, a edição propõe exercício fundamental: repensar a humanidade como prática viva, colocando alegria, beleza e poética no centro da vida coletiva.

A inspiração central desta edição reside na poesia brasileira, nomeadamente no poema "Da calma e do silêncio", de Conceição Evaristo. A Bienal se propõe a ser espaço de desaceleração e escuta atenta, essencial para reavaliar as relações com o tempo, o espaço e o outro. Em uma época de aceleração compulsória, a calma emerge não como passividade, mas como resistência necessária.

A Bienal se organiza em três eixos curatoriais:

Reivindicar o Espaço e o Tempo, inspirado em Conceição Evaristo, convida o público a desacelerar, observar os detalhes e ouvir o ambiente. Trata-se de proposta para que o indivíduo se conecte com a natureza e acolha as diferenças, valorizando a pausa como ato de resistência e atenção. Em mundo que celebra a pressa, reivindicar o direito à lentidão é gesto político.

Se Ver no Reflexo do Outro, baseado no poema "Une conscience en fleur pour autrui", de René Depestre, propõe reflexão sobre a própria identidade ao olhar para o próximo. O objetivo é questionar as barreiras sociais e promover a coexistência e a atenção às necessidades coletivas, valorizando o encontro e o intercâmbio como fundamentos da vida compartilhada.

Espaços de Encontros e Colonialidade explora as convergências culturais e históricas do Brasil, debruçando-se sobre as heranças da colonialidade e as desigualdades que persistem. Buscando inspiração no movimento manguebit e em manifestações literárias, demonstra como culturas distintas podem se encontrar e criar novos caminhos de convivência e beleza coletiva, transformando feridas históricas em potência criativa.

Seis eixos temáticos da Bienal de São Paulo:

Frequências de chegadas e pertencimentos reflete sobre a profunda relação do ser humano com os lugares, a terra e as comunidades, incluindo os aspectos culturais e afetivos que definem o ato de pertencer. Em tempos de deslocamentos forçados e migração massiva, questionar o que significa pertencer tornou-se urgência global.

Gramáticas de insurgências investiga as práticas e formas de resistência, questionando de maneira crítica as normas, estruturas e poderes estabelecidos na sociedade e no ambiente construído. São as linguagens através das quais corpos e comunidades afirmam existência e direito ao espaço.

Sobre ritmos espaciais e narrações explora a maneira como o espaço é vivido e narrado, considerando os ritmos, movimentos e as diversas histórias que os ambientes carregam e contam. Cada espaço possui cadência própria, moldada pelas vidas que o atravessam.

Fluxos de cuidado e cosmologias plurais aborda os modos diversos de cuidado, as conexões humanas e as cosmologias múltiplas que moldam a convivência e a forma como os espaços são concebidos e utilizados. Reconhece que existem múltiplas maneiras de estar no mundo, cada uma carregando sabedorias próprias.

Cadências de transformação trata das mudanças, adaptações e evoluções nos espaços, nas comunidades e nas práticas arquitetônicas, reconhecendo o dinamismo do mundo. Nada é estático, tudo se transforma, e compreender essas cadências é essencial para projetar futuros possíveis.

A intratável beleza do mundo é convite à celebração da complexidade, diversidade e beleza do mundo, valorizando o imprevisível e o sensível como elementos essenciais na produção artística e arquitetônica. O termo "intratável" sugere beleza que resiste à domesticação, que não se deixa capturar completamente, permanecendo selvagem e livre.

Arte e Arquitetura como Catalisadores de Futuro

Em sua 36ª edição, a Bienal de São Paulo reafirma seu papel como catalisador de diálogos urgentes, utilizando arte e arquitetura para imaginar e construir futuro que priorize igualdade, poética e alegria no centro da vida coletiva. Não se trata de escapismo ou negação das crises, mas de afirmação radical de que beleza, sensibilidade e calma são direitos fundamentais, não luxos reservados a poucos.

A proposta curatorial de Ndikung e sua equipe desafia o público a experimentar tempo dilatado, espaço atento e encontro genuíno. Ao trazer Conceição Evaristo e René Depestre como guias conceituais, a Bienal firma compromisso com vozes historicamente marginalizadas, reconhecendo que as respostas para as crises contemporâneas podem estar exatamente nos saberes e sensibilidades que o projeto colonial tentou silenciar.

A 36ª Bienal de São Paulo não oferece respostas prontas, mas convida a perguntas essenciais: Como habitar o mundo de forma menos violenta? Como criar espaços que acolham diferenças? Como transformar legados de dor em possibilidades de cura? São questões que reverberarão muito além do período expositivo, plantando sementes para transformações profundas na forma como pensamos arquitetura, arte e vida coletiva.