Modernismo: um novo jeito de pensar o habitar no Brasil.
São Paulo se prepara para sediar a 1ª Semana da Arquitetura Moderna, um evento que transcende a visitação turística e se estabelece como gesto fundamental de preservação ativa. Entre os dias 7 e 9 de novembro, residências emblemáticas do modernismo paulista abrirão suas portas ao público, estimulando o debate sobre patrimônio e colocando a sociedade em contato direto com obras de inestimável valor arquitetônico e histórico. O objetivo é claro: celebrar e proteger um movimento que redefiniu profundamente o conceito de morar no Brasil.
Quando a Arquitetura Repensa o Habitar
A arquitetura moderna brasileira surgiu como uma resposta criativa e autêntica às condições do país, reinterpretando princípios do modernismo internacional sob uma ótica tropical. Os pilares conceituais deste novo jeito de habitar são evidentes nas residências que integram a programação: integração espacial com ambientes fluidos e conectados, profunda relação com a natureza através de grandes painéis de vidro e jardins internos, e democratização dos espaços que refletiu uma vida familiar mais democrática.
As inovações estruturais com concreto armado, pilotis e plantas livres permitiram flexibilidade inédita, liberando as paredes de sua função estrutural. Soluções específicas para o trópico, como brises, ventilação cruzada, pés-direitos altos e varandas generosas, diferenciaram a produção brasileira das importações europeias, criando modos de sociabilidade mais informais e autenticamente brasileiros. A casa modernista não negava a paisagem tropical, mas respirava com ela.
Três Residências, Três Visões do Modernismo
Durante a Semana, três casas modernistas de grande relevância estarão abertas ao público com percursos guiados que exploram a história e o valor intrínseco destas construções. É uma oportunidade única de vivenciar de perto o legado modernista em sua forma mais preservada e autêntica.
Residência Nadyr de Oliveira (1960–1961) – Carlos Barjas Millan
07/11, sexta-feira
A primeira residência a receber visitantes é um exemplo marcante da arquitetura brutalista paulista. Projetada por Carlos Barjas Millan, a casa revela uma estética austera e honesta através de elementos pré-fabricados e materiais expostos. O rigor e a visão do arquiteto são evidenciados no mobiliário fixo original ainda preservado, que integra arquitetura e interior de forma orgânica.
A residência Nadyr de Oliveira mantém todos os detalhes e cores originais, com destaque para os tons de azul, laranja e ocre que pontuam os espaços. É um testemunho raro do mais alto nível de refinamento técnico, construtivo e de projeto da Arquitetura Moderna Brasileira, permanecendo intacta como documento vivo de uma época.
Residência João Marino (1969) – Sylvio Sawaya
08/11, sábado
No segundo dia, o público poderá conhecer o projeto de Sylvio Sawaya, caracterizado por uma planta clara e bem distribuída. A casa possui uma ampla sala de estar central envidraçada e voltada ao jardim, integrando os ambientes internos e conectando o interior à paisagem de forma natural e fluida.
O resultado é uma arquitetura de traços firmes, porém não rígidos, que se mantém viva décadas após sua construção. A residência João Marino revela uma arquitetura poética e experimental onde cada elemento, volume e materialidade expressa propósito e integra cidade, clima e modo de habitar. É um exemplo eloquente de como o modernismo paulista equilibrou rigor projetual e sensibilidade espacial.
Residência Max Define (1975) – Eduardo de Almeida
09/11, domingo
Encerrando o ciclo de visitas está um marco na trajetória de Eduardo de Almeida. Erguida em um terreno de topografia complexa, a residência Max Define reflete harmonia, leveza e integração contínua com a natureza. O projeto foi cuidadosamente elaborado para valorizar as paisagens circundantes, promovendo conexão permanente entre interior e exterior.
Eduardo de Almeida, sintetiza a experiência espacial da casa: "A relação entre dentro e fora é muito bela. E ela acontece dentro da casa, você está dentro de um lugar e, de repente, você já vê o que está acontecendo lá fora. Você passa pela casa e vê o outro lado". Essa permeabilidade visual e espacial é a essência do modernismo tropical brasileiro, onde arquitetura e natureza coexistem sem hierarquias.
Além das Visitas: Reflexão e Formação
A 1ª Semana da Arquitetura Moderna se complementa com uma programação voltada ao debate e à formação de público. Palestras e encontros reunirão arquitetos, pesquisadores e convidados especiais para reflexão sobre o modernismo paulista, gerando momentos de troca e aprendizado entre diferentes gerações de profissionais e admiradores da arquitetura.
Cada casa participante receberá exposições temáticas com curadoria de materiais originais, fotografias, croquis e depoimentos que ajudam a contextualizar a obra e seu autor dentro do movimento moderno. A documentação exposta transforma as residências em verdadeiros centros de pesquisa temporários, onde o público pode aprofundar a compreensão sobre processos criativos e construtivos.
A vivência cultural e educativa contempla atividades voltadas a estudantes e ao público geral, incluindo transporte guiado, rodas de conversa e experiências sensoriais. O objetivo é aproximar a arquitetura do cotidiano de forma acessível e envolvente, demonstrando que o patrimônio moderno não é assunto restrito a especialistas, mas herança coletiva que merece ser conhecida, compreendida e preservada.
Preservação Ativa: Um Compromisso com o Futuro
A realização da 1ª Semana da Arquitetura Moderna em São Paulo é um posicionamento claro sobre a importância da preservação ativa do patrimônio moderno, ainda vulnerável e frequentemente ameaçado por demolições e reformas descaracterizadoras. Ao abrir estas casas ao público, seus proprietários e os organizadores do evento afirmam que o legado modernista pertence à cidade e à sociedade.
O modernismo brasileiro inventou novas formas de habitar os trópicos, criou espaços mais democráticos e integrados, e demonstrou que arquitetura de qualidade não é privilégio, mas direito. Esta Semana é um convite para que paulistanos e visitantes reconheçam, nas linhas puras e nos espaços generosos destas residências, a expressão máxima de um período em que o país ousou imaginar futuros melhores através da arquitetura.
