A Fundação Bienal de São Paulo formalizou o anúncio do projeto que representará o Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, a ser realizada entre 9 de maio e 22 de novembro de 2026. A seleção aponta para um posicionamento institucional focado em discussões críticas sobre história, identidade e representatividade, consolidando a presença brasileira em um dos mais importantes eventos de arte contemporânea do mundo.
O projeto escolhido, intitulado "Comigo ninguém pode", reunirá as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão, duas das mais proeminentes vozes da arte contemporânea brasileira, sob curadoria de Diane Lima, reconhecida por sua atuação acadêmica e prática voltada à decolonialidade, justiça racial e à representatividade de artistas negros e indígenas. A composição deste trio reforça o destaque dado à complexidade da produção brasileira no panorama artístico internacional, evidenciando narrativas que historicamente foram marginalizadas nos circuitos hegemônicos da arte.

O título da mostra é inspirado na planta popularmente conhecida como "comigo-ninguém-pode", símbolo de proteção e resistência na cultura popular brasileira. Este conceito funciona como eixo central que articula os temas propostos pelas obras: o legado do colonialismo, a recuperação de memórias silenciadas e a exploração de processos de cura social e histórica. A escolha do título estabelece desde o princípio uma postura de enfrentamento e resiliência, características que permeiam tanto as trajetórias das artistas quanto os conteúdos de suas produções.
A proposta brasileira estabelece um diálogo direto com o tema da Bienal de Veneza 2026, "In Minor Keys" (Em Tons Menores). A curadoria e as obras de Rosana e Adriana ao abordarem memória, feridas coloniais e identidade, criam uma experiência poética e reflexiva. Essa sintonia permite que o pavilhão brasileiro não apenas participe, mas dialogue profundamente com as questões globais propostas pela Bienal, trazendo uma perspectivas única.
A trajetória de Diane Lima é marcada pela descolonização, justiça racial e representatividade, com foco no feminismo negro na arte latino-americana. Seu trabalho curatorial visa a visibilidade de narrativas historicamente marginalizadas, articulando arte, política e ancestralidade. Lima traz para Veneza uma perspectiva crítica fundamental para compreender as complexidades da produção artística brasileira contemporânea.

A produção artística de Rosana Paulino é uma denúncia contundente das violências simbólicas e físicas impostas a corpos negros e femininos ao longo da história brasileira. Suas obras exploram temas como ancestralidade, a cicatriz social deixada pela escravidão e a necessidade urgente de reparação histórica. Paulino utiliza técnicas diversas, da costura à gravura, para criar trabalhos que são simultaneamente íntimos e políticos, transformando dor em potência criativa e reflexiva.

Adriana Varejão, por sua vez, investiga através da pintura, escultura e azulejaria as marcas profundas do colonialismo e da mestiçagem na cultura brasileira. A artista utiliza a fissura e a pele como metáforas conceituais para memória, identidade e violência histórica, transformando cicatrizes em manifestações poéticas e críticas. Suas obras revelam as camadas, literais e simbólicas, que compõem a história brasileira, expondo feridas que ainda não cicatrizaram completamente. É através dessa estética da ruptura que Varejão convida o espectador a confrontar as contradições e complexidades da formação cultural do país.

A presença do Brasil na Bienal de Veneza 2026, com este projeto, assinala um momento significativo para a arte nacional, sublinhando o compromisso institucional com práticas artísticas que questionam e transformam a compreensão da história e do futuro. "Comigo ninguém pode" não é apenas uma exposição, é um manifesto de resistência, memória e esperança, consolidando a arte brasileira como força transformadora nos debates globais sobre identidade, justiça e reparação histórica.